ENTREVISTA COM AUTORES #314 | Autora Andrea Nunes
1 - Qual foi sua inspiração para começar a escrever?
Cresci em um lar onde as ideias e a liberdade de pensamento eram fundamentais. Meu pai foi preso pela Ditadura Militar no Congresso da UNE em Ibiúna, e minha mãe é uma artista que carrega Augusto dos Anjos em sua árvore genealógica. Em nossa casa, a poesia e a literatura sempre fizeram parte do cotidiano. Comecei a ler muito cedo: aos três anos, devorava a coleção de Monteiro Lobato; aos oito, escrevia meus primeiros poemas; e, aos onze, me apaixonei pelas obras de Agatha Christie. Com catorze anos, escrevi meu primeiro livro infantil, O Diamante Cor-de-Rosa.
Mais tarde, como promotora de Justiça, compreendi profundamente o que José Américo de Almeida (que também pertenceu ao Ministério Público) escreveu no prefácio de A Bagaceira: existem muitas maneiras de dizer a verdade, e talvez uma das mais persuasivas seja contando uma mentira. Adotei essa perspectiva para a minha vida: a ficção é uma ferramenta para olhar para dentro e expressar nossas verdades de forma mais lúdica, acessível e provocadora.
2 - Quais autores ou obras influenciaram seu estilo de escrita?
A paixão pela literatura de mistério começou na infância com Agatha Christie e se consolidou ao longo da vida com mestres que aliam rigor narrativo e reflexão. Se eu tivesse que escolher apenas um livro para salvar em uma espaçonave no fim do mundo, seria O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Também sou profundamente marcada pelo pensamento de autores que dissecam a condição humana e as estruturas sociais, como Zygmunt Bauman e Michel Foucault. Este último, influência dos tempos de faculdade, impregnou-se em mim de tal modo que hoje sussurra nas entrelinhas das teorias conspiratórias dos meus livros.
Mary Shelley, com seu Frankenstein, foi crucial para me fazer entender que é possível adicionar densidade filosófica ao suspense, trabalhando temas como os limites éticos do poder e a relativização de onde está o verdadeiro monstro. Na literatura contemporânea, acredito muito na descolonização da narrativa: não precisamos importar fórmulas prontas ou cenários anglo-saxões para criar ficção de altíssimo nível. O Brasil contemporâneo tem uma matéria-prima humana, social e política riquíssima. Nesse contexto, aprecio o trabalho de Raphael Montes, que conseguiu provar que o suspense não depende do eurocentrismo.
3 - Como você lida com o bloqueio criativo?
Não encaro a página em branco com medo; sinto entusiasmo. A tela vazia não me intimida, ela me instiga. Costumo descrever a imaginação do escritor como um bicho meio desvairado, que pode parecer assustador enquanto não aprendemos a domá-lo. Mas, depois que dominamos a técnica para conduzi-lo, a tela branca vira um verdadeiro paraíso. Costumo dizer que difícil não é escrever; difícil é viver, que não tem tecla delete nem processo de edição.
4 - Quais desafios você enfrentou durante sua jornada como escritor(a)?
Há os desafios universais da rotina de quem escreve: insônia, dores na coluna, a ausência da família e a vida real acontecendo enquanto orbitamos fora do tempo. No mercado brasileiro, enfrentamos um círculo vicioso perverso: algumas livrarias não dão vitrine e as editoras receiam arriscar tiragens altas para produções nacionais que não sejam notoriamente consagradas. Falta curadoria especializada e efetivamente democrática para fazer chegar cada literatura ao seu leitor ideal. Além disso, produzir ficção policial e suspense sendo mulher traz a urgência de furar bolhas e honrar as antepassadas que não tiveram a oportunidade de tornar a autoria feminina visível e respeitada no gênero.
5 - Você já teve experiências significativas com seus leitores? Alguma história que gostaria de compartilhar?
Tenho os melhores leitores do mundo. Há uns quinze anos, vi o comentário de uma moça chamada Neyla em uma resenha do meu livro A Corte Infiltrada. Ela dizia que suspense não era para ela. Entrei em contato por e-mail e a desafiei a ler o livro, prometendo deixá-lo em sua casa. Se ela não gostasse, poderia declarar publicamente que eu havia perdido o desafio. Ela aceitou, adorou a leitura e nunca mais parou de ler o gênero. Anos depois, em um encontro na Bienal da Bahia, reencontrei a Neyla , hoje administradora do perfil @CDM_blog. Ela trouxe aquele mesmo exemplar amarelado da primeira tiragem , com uma capa bem diferente que nem circula mais pelas livrarias. Foi um momento emocionante, em que abracei não apenas a leitora que estava ali como creator, meu abraço abarcou um pouco de mim mesma, a escritora que eu fui no início dessa jornada.
6 - Como é o seu processo de escrita? Você segue uma rotina específica?
Minha escrita exige taquicardia. Tenho para mim que no texto literário precisa existir aquela sensação de urgência vital, quase como se você não pudesse morrer antes de ver o livro pronto, porque se o autor não sente essa pulsação, o texto não está maduro o suficiente. Como escrevo romance policial, a história e a ação vêm em primeiro lugar: o enredo precisa ser impecável, arquitetado com malícia de narrador, ambiguidade nos diálogos e cenários que plantem pistas subliminares. Na prática, concilio essa engrenagem com a carreira jurídica escrevendo nos momentos de concentração que cavo na rotina, trabalhando a trama para que o bicho da imaginação ande lado a lado com a técnica.
7 - Qual é o impacto que você espera que suas obras tenham nos leitores?
O leitor se torna meu cúmplice desde a primeira linha. Temos um acordo tácito: ele sabe que vou enganá-lo ao longo da trama e se submete a isso de bom grado É uma manipulação consentida, e levo minhas obrigações nesse pacto muito a sério. Tenho leitores maravilhosos que sofrem com a narrativa, pulam refeições e varam a madrugada sem conseguir fechar o livro. O maior retorno é quando recebo mensagens dizendo que o enredo tirou o fôlego deles ou que o final provocou aquela reação que busco em todo plot twist: a pessoa volta os capítulos para trás, estupefata, resmungando: “Como foi que eu não percebi isso antes?" Quero, antes de tudo, tirá-los da inércia com uma boa dose de adrenalina e entretenimento inteligente. Mas não escrevo para entregar respostas mastigadas: meus livros buscam despertar o senso crítico sobre temas contemporâneos urgentes, sejam os bastidores da Justiça, dilemas bioéticos, tecnologia ou o choque entre o progresso desenfreado e o que nos define como humanidade . Espero que o leitor feche o livro transformado pela dúvida e pela transcendência, inquieto com as zonas cinzentas da realidade em vez de se contentar com maniqueísmos superficiais.
8 - Quais são seus planos para o futuro? Você está trabalhando em algum novo projeto?
O trabalho não para. Sigo debruçada na escrita de um novo romance e na circulação das minhas obras já publicadas (Presunção de Inocência, Jogo de Cena, Corpos Hackeados e A Corte Infiltrada). Também estou curtindo muito o passo a passo do processo de edição de Corpos Hackeados em espanhol, que será publicado em breve no Chile. É fascinante ver sua obra ganhar expressão em outra língua, sobretudo quando há um cuidado por parte da editora de preservar o sentido original das palavras , dado que minha obra tem muitos detalhes de regionalismo. No mais, meu compromisso literário permanente é continuar explorando as tensões contemporâneas e trazendo a verossimilhança do crime e sua investigação sob a ótica de quem trabalha com isso na vida real, fortalecendo o diálogo com leitores dentro e fora do país, em feiras literárias, bienais e espaços acadêmicos
Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Para quem ama o suspense e o romance policial: o convite que faço com meus livros é atravessar a fita de isolamento da cena do crime e entrar por portas que normalmente ficam trancadas.
Não escrevo sobre o mistério apenas a partir do que li nos manuais, mas a partir do chão de fábrica onde as decisões reais acontecem: do cheiro dos inquéritos, das madrugadas de plantão, da tensão técnica de uma perícia e daquela zona cinzenta dos bastidores onde a verdade nunca é tão limpa quanto nos discursos oficiais.
A promessa que deixo aos leitores do Lost Words é a de um pacto de cumplicidade sem atalhos: tramas eletrizantes, sim, mas construídas com a carne, a poeira e a vertigem de quem conhece de perto a engrenagem humana que move a justiça. Preparem para aprender sobre o combate o crime com os truques reais que os livros não mencionam, e preparem o fôlego para mergulhar no que quase ninguém tem autorização para ver.
Sobre sua(s) obra(s):
Sinopse: O início das aulas na cobiçada faculdade nova era o grande sonho daqueles jovens, que queriam se tornar os maiores criminalistas do país. O que eles não esperavam era que os conflitos humanos e crimes intrigantes saíssem das páginas dos livros e envolvessem suas próprias vidas, colocando-os em perigo e desafiando sua capacidade de aprendizado rápido.
Para decifrar os enigmas e se livrar das ameaças que vão aparecendo a cada dia, esses estudantes precisarão contar com os ensinamentos de uma dupla de professores de métodos heterodoxos, com quem descobrirão os truques e a malícia para enfrentar a alta criminalidade de um modo que não se aprende em cartilhas acadêmicas.
Entretanto, para vencer os criminosos, eles também terão que superar a competitividade de uma universidade de elite, vencer suas limitações e traumas pessoais e saber lidar com as paixões juvenis que começam a aflorar. - Compre aqui!
Sinopse: Quando a bioimpressão de órgãos humanos , criada por um cientista nordestino, se torna realidade em um hospital da mesma região , assassinatos misteriosos começam a expor uma possível conspiração que envolve tráfico internacional de órgãos , fanatismo religioso e corrupção institucional. E quando uma auditora investiga o sistema, a ciência entra em rota de colisão com o poder , e ela se depara com a perturbadora pergunta : no mundo atual , quem decide quais corpos realmente merecem viver ? E como isso se tornou a maior ferramenta de poder da era contemporânea? - Compre aqui!
Sinopse: Um monge budista morre misteriosamente em um quarto de hotel em Brasília horas antes de um encontro com o presidente do Supremo Tribunal Federal, com pouca repercussão na grande mídia. Neurocientistas de um instituto de pesquisa do Recife desenvolvem uma poderosa máquina de estimulação magnética transcraniana. Um repórter investigativo, bonito e atraente como manda o figurino, faz pesquisas para uma matéria sobre o novo sistema de telecomunicações a ser implantado no STF, que será criptografado e à prova de escuta. A partir destes eventos aparentemente desconectados Andrea Nunes constrói a trama de "A Corte Infiltrada", um intrigante thriller policial trespassado pela realidade brasileira atual, em que julgamentos do STF são acompanhados como telenovelas e o crime organizado perpetra barbáries medievais em presídios e nas ruas de todo o país para consolidar e expandir seu poder. Como é indispensável na literatura de mistério, os fatos sempre estão à frente do leitor. O enredo avança com engenhosa mobilidade de cenários, em uma sucessão de reviravoltas e revelações, pontuado por enigmas escondidos em mandalas e armas neurológicas, enquanto você é apresentado a revoluções deste novo milênio como o iBrain. - Compre aqui!
Sinopse: A morte de um boticário francês na fictícia cidade de Mangueirinhas desencadeia uma sucessão de outros crimes aparentemente provocados por assombrações do folclore nordestino, levando a pacata população local a um estado de histeria coletiva. Para solucionar tais crimes, a delegada da cidade precisa superar as desavenças que cultiva com o filho de seu padrasto, um historiador que regressou à cidade, mas que renega o parentesco e as origens. Num romance policial eletrizante, Andrea Nunes utiliza informações verídicas sobre o mais ousado projeto científico da humanidade e traz revelações sobre a crise mundial do Petróleo, numa obra recheada de estratégias de espionagem, ação, suspense e reviravoltas, arrematando, como sempre, com um final desconcertante para o leitor. - Compre aqui!
Sobre o(a) autor(a):
Andrea Nunes é escritora , procuradora de Justiça em Pernambuco, membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror - ABERST, sócia honorária da Academia Paraibana de Letras e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba .
Publicou os romances policiais o Código Numerati em 2010, A Corte Infiltrada, (Ed. Buzz, Prêmio Bunkyo de Literatura 2019) Jogo de Cena (Ed. CEPE, Prêmio ABERST de Literatura 2019- melhor romance policial do Brasil) e Corpos Hackeados (Ed. CEPE , 2021, com roteiro assinado pela cineasta Tizuka Yamasaki para adaptação dessa obra para o audiovisual, projeto Corpos Hackeados – o filme, registrado na ANCINE sob o no 01416.006973/2023-38). Andrea também detém menção honrosa conferida pela Academia Pernambucana de Letras como melhor escritora nordestina no prêmio Dulce Chacon no ano de 2015.
Na Sorbonne Nouvelle , bem como na livraria portuguesa e brasileira , conversou em 2025 sobre suas obras e sobre a interdisciplinaridade entre Literatura e Direito, e sobre romance policial brasileiro.
Seu novo romance , Presunção de Inocência , ambientado num campus universitário, traz à tona alguns temas sensíveis como cultura do estupro , silenciamento das vítimas e relações de poder, bem como elitização dos cursos jurídicos .A obra traz recomendação na contracapa de: Raphael Montes, Andréa Pachá e Tizuka Yamasaki
Beijos!



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